Abandono Afetivo Inverso – O Abandono Dos Idosos

Abandono Afetivo Inverso – O Abandono Dos Idosos

Olá! Muito provavelmente você já ouviu falar em abandono afetivo e associou isso aos pais e mães que abandonam afetivamente os próprios filhos, mas talvez você não saiba que o raciocínio é exatamente o mesmo no que diz respeito aos filhos adultos que abandonam os seus pais idosos.

O Estatuto do Idoso é uma lei jovem, que completa 15 anos de existência no próximo 1º DE OUTUBRO e traz logo no artigo 1º a definição de IDOSO: Ao completar 60 anos de idade você se torna uma pessoa idosa, para os efeitos da Lei 10.741/2003. Mas se fizermos um passeio rápido pelas primeiras fases da vida, vemos que:

  • 1ª infância – 0 a 3 anos de idade
  • 2ª infância – 3 a 7 anos de idade
  • 3ª infância – 7 a 10 anos de idade
  • Pré-adolescência – 10 a 12 anos de idade (puberdade)
  • Adolescência – 12 a 19 anos de idade (mas já existe um grupo de cientistas que defendem que o indivíduo, atualmente, estende a adolescência até aos 24 anos de idade).

Terminado esse período de “PREPARAÇÃO”, entende-se que a pessoa esteja preparada para a fase adulta; está enfim formada, fisiológica e psicologicamente, no que tange à personalidade inclusive.

Assim seguiremos nós até a fase madura, aquela que nos coloca na condição de IDOSOS, e aí viveremos +/- por uns 30 anos, por conta do aumento da expectativa de vida e outros fatores que trazem qualidade de vida.

Então aos 60 anos entramos na última fase da vida? Mas como é possível um lastro assim tão grande se comparada às primeiras fases da vida, que são tão curtinhas?

O fato é que por ser um período de declínio, o organismo sofre a ação metabólica do processo de senescência, que não se confunde com senilidade; senescência é um processo metabólico natural de envelhecimento. Mas, se a gente observar, uma pessoa de 60/65 anos, em tese, está mais hígida do que uma pessoa de 80 anos de idade!

E se o Estatuto do IDOSO visa à proteção integral do idoso não deveria reduzir essa amplitude toda?

A Organização Mundial da Saúde, preocupada com o acelerado crescimento do número de IDOSOS, divulgou, no dia 29 de setembro de 2015, O Relatório Mundial sobre Envelhecimento e Saúde.  Esse documento traz conceitos e novas formas para um envelhecimento saudável, e diz em recomendação às políticas públicas, que o gasto com a população idosa é investimento, não é custo. E nas palavras da Dra. Margaret Chan (Diretora-geral Organização Mundial da Saúde):

”O relatório baseia as suas recomendações nas mais recentes evidências sobre o envelhecimento, e observa que muitas percepções e suposições sobre as pessoas mais velhas são baseadas em estereótipos ultrapassados”.

Assim, por meio da Lei 13.466/2017 o Estatuto do IDOSO sofreu algumas alterações para fazer incluir uma proteção diferenciada para aquele que tem mais de 80 anos. É, na verdade, uma prioridade especial.

Então, o Estatuto do Idoso, que visa à proteção integral e ao melhor interesse da população considerada idosa, de 60 anos em diante, ajustou essa amplitude toda, por meio de uma prioridade especial, a partir de 80 anos de idade, porque a Lei protege sim, desde os 60 anos até o fim da vida, mas é uma amplitude muito grande e uma pessoa de 60/65 anos ainda está na ativa. Na verdade é diferente das pessoas de 80 anos… um ou outro ainda pode estar, mas é mais difícil de se ver, pelo menos por enquanto.

Então, as pessoas de 60/65 anos de idade, como já falei, ainda estão profissionalmente ativas, trabalhando, produzindo, mas isso não impede que sofram preconceito e discriminação, que muito se deve à falta de reconhecimento e de valorização daquele que deixou de estampar a beleza e o vigor da juventude. Isso, na verdade, é um mal social, o nosso pavor da velhice é um mal social.

Mas a essência da vida é mudar, a vida não para! Olha só pra gente lá nas fases iniciais… Nascemos crianças, pequenininhos, totalmente dependentes; vamos crescendo, nos tornando mais independentes, vamos entrando na adolescência, nos tornamos adultos… Gente, nós mudamos! Nós somos todos aqueles que fomos um dia, está tudo em nós, isso é bem verdade, mas a gente não se reconhece naquele bebe, não é? Por quê? Porque nós mudamos…

E, justamente, falando sobre isso, eu trago um trechinho da Obra da filósofa existencialista, Simone de Beauvoir, intitulada A VELHICE, de 1970: “a vida é um sistema instável no qual se perde e se reconquista o equilíbrio a cada instante; a inércia é que é sinônimo de morte. A lei da vida é mudar”.

Você quer viver quantos anos? Se fosse possível decidir quanto a isso, até que idade você gostaria de viver?

Você já se imaginou uma pessoa idosa, com mais de 80 anos de idade?

Você já observou como é o padrão, no que diz respeito à agilidade de movimento da pessoa idosa? Como elas são mais lentas para caminhar, para entrar e sair de transportes, pra pegar alguma coisa no bolso ou na bolsa, pra tomar um banho ou mesmo para responder a uma pergunta…

Isso se deve a diminuição da capacidade funcional, mas não é incapacidade! É um processo natural; é um processo fisiológico e psicológico totalmente natural. Mas, será que com a gente vai ser diferente? Se o padrão é esse eu acho que é muito natural que com a gente seja da mesma forma, não é?

Olha, eu fui criada com meus avós. Durante toda minha vida eu tive meus avós ali, próximos, vivendo com a gente… aquela família estendida, sabe? Hoje eu vivo com duas idosas na minha casa; a minha mãe e a minha madrinha; a minha mãe com 86 e a minha madrinha com 88 anos de idade.

Gente, pra mim, na minha visão, é inconcebível afastá-las de mim. A valorização dos mais velhos é algo muito importante, porque como é possível avançar para o futuro sem valorizar o passado?

Será que são os idosos lentos ou nós é que somos os acelerados? Nós queremos tudo pra ontem, nossa vida é frenética, queremos tudo ao mesmo tempo agora. Mas o idoso já percebeu que a vida é um dia de cada vez, que é pari e passo, como diz a música do Lenine, Paciência: “enquanto a vida acelera e pressa, eu me recuso faço hora, vou na valsa, a vida é tão rara”.

Nós somos um país que está envelhecendo, na verdade o mundo está envelhecendo, logo, logo seremos 1/3 da população de idosos. Não demora nada, nós estaremos ali naquela fatia da sociedade. E como você gostaria que fosse, quando chegar a sua vez de ser idoso?

Se nós dividíssemos o abandono material e o abandono afetivo, poderíamos pensar que o cuidado material é um dever legal, que a lei exige que os filhos adultos amparem os pais idosos, por força do dever de solidariedade; mas o cuidado afetivo também é um dever legal, porque o afeto passou a ter valor jurídico e está consubstanciado no dever de cuidado. Por isso, meus amigos, é preciso esforço, coragem e paciência… As exigências são muitas, não é fácil, mas é dever legal e o abandono, essa palavra carregada de tristeza e desalento, é crime e está prevista tanto no Estatuto quanto no Código Penal com pena de reclusão, com direito a agravantes e causas de aumento de pena. E assim também na lei civil, gera o dever de indenização a omissão de cuidados para com os pais idosos.

Eu vou deixar um link do Estatuto aqui embaixo, para você baixar e conhecer todas as garantias que a Lei confere às pessoas com 60 anos ou mais.

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/2003/l10.741.htm

O IDOSO precisa viver em um ambiente seguro, com bem-estar físico, psíquico, social e espiritual, com dignidade e autonomia dentro do possível.

Tudo isso é muito importante para evitar a depressão, que causa uma série de doenças físicas, que torna o idoso frágil, fazendo com que a sua imunidade fique drasticamente comprometida. E existe outra demanda, uma demanda séria, da qual pouco se fala; o IDOSO em condição de abandono e depressão, muitas vezes comete o suicídio e disso pouco se ouve falar.

O IDOSO é um repertório de conhecimento e de sabedoria, que não encontramos em bibliotecas, livrarias ou documentários; são experiências únicas, vívidas, que podem ser repassadas para os mais novos, fazendo com que as experiências desses sejam exponencialmente enriquecidas.

A troca com os mais velhos pode significar um aumento de vivência de forma transmitida, porque nós não podemos viver nem ter mais experiências do que nosso tempo de vida permite.

Eu já disse isso antes e vou repetir: não existe ex-pai, ex-mãe, ex-filho.

Você que tem um filho pequeno hoje e que o ama incondicionalmente não se imagina abandonado por ele, não é mesmo? Então, não abandone seus pais, honre seus pais, cuide deles. Inclua os seus pais no seu projeto de família, porque com isso você estará dando o exemplo para que mais tarde não venha você a sofrer o abandono.

Se estiver muito difícil, você pode construir um compartilhamento de convivência e de responsabilidade com seus irmãos adultos, isso é possível juridicamente.

E se não tiver outro jeito, e você precisar internar em casa de saúde, casa de repouso ou hospital, não os abandone lá. Isso é crime! Além disso, você vai causar uma energia muito difícil para sua família. Aos olhos das Leis Sistêmicas, que rege os relacionamentos, isso pode causar um desdobramento seriíssimo para os seus descendentes e para você também.

E quando a Constituição Federal e a Lei dizem que a proteção da pessoa idosa é um dever do Estado, da sociedade e da família, o que essas letras estão querendo dizer é que se você souber de algum caso de maus-tratos a idosos você tem a obrigação de denunciar, sob pena de omissão.

Disque 100, você será atendido pela Ouvidoria Nacional da SDH. E em cada localidade existe um número local que você poderá descobrir pesquisando no Google. O sigilo é garantido.

A pessoa idosa tem o direito de viver dignamente como qualquer cidadão e isso inclui o direito de decidir. Decidir sobre a sua vida, decidir se quer namorar, se quer viajar, passear, se divertir; o direito do idoso ter o seu benefício previdenciário sem nenhuma violação é muito importante, porque não pode sofrer nenhum tipo de violação financeira! O idoso não pode ser obrigado a sair da própria casa; não pode ser obrigado a partilhar os seus bens em vida.

O maior desafio hoje é garantir um envelhecimento com dignidade e autonomia e combater o preconceito contra os idosos é uma luta diária e deve ser observada nos pequenos detalhes. Até mesmo a forma de falar infantilizada com o idoso já constitui preconceito e discriminação.

A OMS, em 2016, declarou a sua preocupação com o preconceito contra as pessoas idosas em um documento divulgado em Genebra.

O idoso não está esperando a morte chegar não, ele está vivendo, se aperfeiçoando, está se aprimorando estudando, usando as tecnologias e cada vez mais inserido, e, em tese, o idoso é uma pessoa plenamente capaz.

E como diz o Jô Soares: “não existe esse negócio de terceira idade, só existem duas opções, o vivo e o morto”.

A pessoa humana é uma constante construção, uma construção permanente e todas as fases da vida são fundamentais, inclusive a velhice. Passar por essa fase final significa concluir o caminho para o fechamento de uma vida plena de sentido.

Vamos olhar diferente para continuar a ver, como diz Gastón Bachelard, vamos ser um instrumento para a mudança desse cenário equivocado que está aí; vamos olhar de uma forma atualizada para o idoso. Se não for por altruísmo, que seja por egoísmo, porque um dia você estará lá!

Um abraço fraterno,

Até as próximas linhas!

Rosane Albuquerque.

Fechar Menu

Estimados clientes, em atenção ao chamado das autoridades para que façamos o isolamento necessário à nossa integridade física e à incolumidade de todos, informamos que as nossas atividades presenciais estão suspensas desde o dia 18.03.2020, e assim seguirá até orientação contrária dos órgãos governamentais e de saúde.

No entanto, seguiremos atendendo de maneira remota, pelos meios eletrônicos, como por exemplo: e-mails, WhatsApp, Skype e outras formas de videoconferência. Informamos, ainda, que os prazos judiciais foram suspensos, por determinação do CNJ, até o dia 30.04.2020, inclusive com o fechamento dos fóruns à circulação pública, excetuando-se as medidas emergenciais.

É hora de nos conectarmos ao bem comum, com pensamentos e sentimentos de esperança de que no fim tudo vai dar certo!